sábado, 29 de janeiro de 2011

Enquanto você dormia


Durante o sono, sabemos que o cérebro reorganiza as experiências do dia, categorizando e criando ligações que transformam os dados da memória de curto prazo em memórias de longo prazo. De modo geral, as memorais de curto prazo funcionam como o chip de memória do computador: armazenando tudo para consumo e uso imediato, sem referencias cruzadas e rapidamente acessível. Uma informação recebida hoje fica ali disponível, acessível sem grande esforço. Quando vamos dormir, o cérebro reorganiza então a memória de curto prazo, avaliando aquilo que precisa ser guardado para futura referencia e descartando as informações desnecessárias para liberar espaço de memória. O fato de que sua reunião era as quatro horas de uma terça-feira pode ser muito irrelevante para futura referencia, então isso segue para uma área que é similar ao descarte: algo que não ficará indexado para referencia fácil. De todo modo sabemos que isso fica guardado num nível qualquer, abaixo da consciência, porque pode ser recuperado por meio de hipnose ou regressão. As informações mais relevantes recebidas na reunião, entretanto, precisam ser guardadas e acessadas novamente. Essas serão categorizadas e guardadas na memória de longo prazo, que é indexada, e podemos acessá-las novamente a qualquer momento. A memória de longo prazo é necessariamente indexada e organizada, de modo a podermos acessá-la sempre. Essa reorganização permite que o espaço de memória imediata , que é finito e limitado, seja liberado para o dia seguinte.
Precisamos dessa liberação para que possamos entender e captar as coisas no dia seguinte. As pesquisas mostram claramente que a falta de sono prejudica a percepção e dificulta o aprendizado, tornando os processos mentais mais lentos, exatamente porque temos uma área sobrecarregada, em função de não a termos liberado através da organização cerebral que aconteceria durante o sono. Durante o sono profundo, mais especificamente. Além do tempo de sono profundo, uma parte do sono é dedicada ao estado REM, no qual sonhamos. Está provado que o fato de lembrar ou não os sonhos não tem qualquer relação com o fato de sonharmos – todos sonhamos, independente de lembrarmos, e a falta de sono REM, não tem conseqüências graves como a falta de sono profundo, que cria comportamentos psicóticos e esquizofrênicos. (voltaremos às razões disso mais adiante)
Durante o sono REM e os sonhos, estamos criando as linhas de ligação para recuperação das memórias indexadas. São criados caminhos sensoriais que funcionarão como gatilhos para as nossas memórias. Para isso, áreas do cérebro que são responsáveis pelos sentidos precisam ser ativadas, de modo que o caminho se estabeleça. Assim, a área responsável pela visão precisa receber um estimulo interno para criar uma associação com a nova memória indexada no sono profundo. O Cérebro cria um disparo visual, que é percebido pelo Cérebro adormecido como uma visão – mas como estamos dormindo, isso nos vem como o que chamamos de sonho. Do mesmo modo são criados os caminhos para os outros sentidos, como olfato, tato e paladar. Mas como nossa memória é fortemente indexada e acionada por estímulos visuais, este é o aspecto mais lembrado nos sonhos, o dominante.
Seria interessante pesquisar como sonham aqueles que nunca tiveram visão, os cegos de nascença. Naturalmente deve haver um sistema diferenciado, posto que o sentido da visão nunca foi utilizado.
A falta de sono REM, portanto, impede a criação dos caminhos sensoriais para recuperação das memórias indexadas. Mas podemos continuar vivendo normalmente sem isso, por longos períodos. No longo prazo, teremos menor acesso e mais dificuldade para recuperar as memórias – e certamente seremos privados daqueles momentos em que os sentidos nos transportam ao passado; quando uma determinada visão no dia de hoje dispara uma memória complexa indexada que nos remete diretamente ao passado e a uma situação anterior. Mas porque a falta de sono profundo nos torna psicóticos e nos leva a comportamentos esquizofrênicos?
Está comprovado que os impulsos mentais esquizofrênicos são muito semelhantes aos impulsos naturais que ocorrem durante a fase REM do sono – ou seja, a esquizofrenia é na prática, como sonhar acordado. O limiar de realidade objetiva é afetado, e o esquizofrênico não consegue distinguir entre o que lhe é externo (o que acontece objetivamente no mundo) e o que e interno (o que acontece subjetivamente dentro de sua mente.)
Isso nos leva a conclusão que o sono profundo, que prepara e indexa as memórias, tem um papel fundamental na liberação do nosso limitado espaço de memória recente, não indexada. Ora, na ausência do sono profundo, o cérebro passa a operar com a memória de curto prazo sobrecarregada. Em poucos dias, privado de sono, tentará iniciar, mesmo acordado, o processo de indexação através dos sentidos, buscando um modo de aliviar a memória de curto prazo. Ao iniciar este processo de indexação utilizando as áreas dos sentidos enquanto o sujeito está acordado, cria estímulos subjetivos que se confundem com a percepção objetiva do mundo. Deste modo, sobrevém os estados psicóticos e esquizofrênicos, porque o sujeito passa a, literalmente, sonhar acordado, sendo incapaz de separar os processos objetivos dos subjetivos, passando então a uma percepção distorcida da realidade. Essas observações apontam para uma coerência importante na terapêutica atual em utilizar o sono induzido para os estados graves de esquizofrenia e psicoses. Convém lembrar que o sono induzido desse modo impede o funcionamento normal dos processos REM do sono.
Sabemos que a falta de sono profundo por períodos muito prolongados leva à morte. Mas porque? O processo de aprendizado é para o que o cérebro foi concebido. Esse processo depende da indexação das memórias. Não podemos conscientemente parar o processo de aprendizado, do mesmo modo que não podemos conscientemente para o processo biológico do fígado. Assim, trabalhando de um modo inadequado, o cérebro vai se sobrecarregando até que suas áreas responsáveis pelos processos vitais começam a ficar comprometidas. Sem a organização essencial, todo o órgão entra em colapso e faz com que o corpo acabe decaindo por erros ligados à manutenção dos processos vitais.
Curioso é que tenhamos criado computadores que são cópias dos nossos sistemas mentais: nossos computadores tem memórias RAM, que são acessíveis muito rapidamente, sem necessidade de muita indexação, mas com capacidade de armazenamento muito mais limitada, mas para grandes
volumes dependemos de baixar estes conteúdos no HD, devidamente organizado e indexado, liberando assim a memória RAM. Do mesmo modo, nós, para grandes volumes de informação, dependemos da indexação realizada durante o sono profundo, que faz com que a informação seja ligada e organizada, setorizada e catalogada pela mente, de modo a ser acessível posteriormente. Os sonhos são, portanto, a parte perceptível dos processo mentais de organização e referencia para acesso posterior.
Porque os conteúdos dos sonhos nos parecem muitas vezes incompreensíveis e até mesmo aleatórios?
Creio que a velocidade com a qual esse processo acontece no cérebro é tão grande e tão intensa, que o que lembramos dos sonhos, no geral, assemelha-se a ver um filme em velocidade muito acelerada. O meu DVD player tem uma função que exibe o filme numa velocidade 64 vezes superior à normal. O efeito de tentar assistir algo nessa velocidade é muito semelhante ao que apreendemos de uma sonho: o protagonista aparece em cena, de repente está num outro lugar, em seguida desaparece subitamente, a seguir está num outro país... claro que entre todas essas cenas, aconteceram muitas outras que deram um sentido claro e contínuo à história. Mas a questão é que ao vislumbrarmos apenas pedaços da história, numa velocidade muito acima daquela que nossa consciência pode captar, temos a sensação de descontinuidade e aleatoriedade das ações. Na verdade, nossos sonhos provavelmente tem um enredo coerente e de seqüência perfeita. Só que a velocidade com a qual o cérebro processa essas indexações é inadequada para nossa mente consciente. Desse modo, ficamos apenas com os pedaços que conseguimos captar, num conjunto que, no geral, não parece fazer sentido. Estamos apenas vendo fragmentos de um filme exibido em velocidade muito maior que a nossa compreensão consciente é capaz de captar.
E se a linguagem é o limitador da velocidade com a qual pensamos?
Levando em conta essa possibilidade de velocidade ampliada durante o sono, esse processamento acelerado em modo REM, se não tivéssemos que conscientemente verter em linguagem o que pensamos, pensaríamos muito mais depressa? As idéias vem mais rápido do que podemos expressar - mas só são reconhecidas depois de comunicadas ou pelo menos guardadas e entendidas por nos mesmos, por meio de linguagem, interna ou extremamente. sem a barreira da linguagem seriamos muito mais rápidos, sem a interface, seria muito mais veloz, exatamente como linguagem de computação de alto nível.
Isso poderia indicar um caminho para o aprendizado acelerado, se interpretarmos as ondas cerebrais do modo REM e as utilizarmos para inserir conhecimento? Posteriormente, quando da utilização do conhecimento, aí sim ele seria vertido sob forma de linguagem – mas já teríamos o conteúdo interiorizado – muito mais rapidamente do que se fosse mediado por formas de linguagem de baixo nível necessárias para a transmissão tradicional do conhecimento, como usamos hoje.


(C) 2011 Paulo R. Ferreira. Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Dignatário da ONU

Um jovem idealista trabalhava na ONU. O que era uma grande realização profissional, visto que acreditava ser sua vocação fazer o bem ao próximo. Ele tinha grande consideração e genuína preocupação com as condições de vida os habitantes dos países subdesenvolvidos. Deixava, de fato, de viver em seu país altamente desenvolvido e confortável para dedicar-se a ajudar os mais necessitados. Durante anos dedicou-se muito, e um dia, chegou a uma posição relevante, destacado como Dignatário da ONU para os problemas de um país africano. Viajou para o país para conhecer de perto, em primeira mão, as condições de vida dos locais.
Ficou chocado com a miséria, com as crianças doentes, com as mães sem recursos. Não que ele não esperasse por isso, mas era ainda pior sendo visto ali, ao vivo, com pulsação, nome, sobrenome e olhar de fome.
Ele estava sendo guiado em sua visita por pessoas do local, intelectuais e gente envolvida com projetos sociais e caridade. Lá pelas tantas, parou em frente a uma das choupanas mais miseráveis do lugar, à porta da qual estava um homem que era só pele e osso. Apesar de obviamente debilitado, o homem lhe sorriu simpaticamente. Em seguida, lhe disse:
- Tenho fome.
O Dignatário ouviu e hesitou por um instante. E isso foi o suficiente para que a frase, somada ao silêncio que a seguiu, atraísse alguns outros moradores que estavam próximos. Em questão de segundos, havia um pequeno grupo, que crescia a olhos vistos, cercando o Dignatário. E de certo modo, ele começava a sentir o peso que cada presença ali colocava sobre seus ombros, esperando sua resposta.
Aos poucos, ele começou a falar sobre as condições desumanas que afligiam aquele povo. Apesar de ser sua primeira visita, ele conhecia bem a natureza do problema e as particularidades da versão local da questão. Mais ele falava, mais seu tradutor se esforçava, mais as pessoas o ouviam com atenção. Pareciam mesmo emocionadas por suas palavras. Também, pudera, pensou ele; um alto Dignatário da ONU, um homem internacional, culto, criado e educado nas melhores escolas do mundo, ali, junto dessas pessoas tão miseráveis, dando-lhes atenção e se dedicando a tratar com elas de seus problemas. Era emocionante para aquelas pessoas, tão privadas de absolutamente tudo, que alguém tão diferente deles, tão privilegiado, estivesse lhes dedicando atenção. Algumas das mulheres com seus filhos pequenos no colo começaram a chorar, emocionadas.
E ele falou por vários minutos, prometeu modificar o modo de distribuição, aumentar o tempo de atendimento médico, mudar o modo como as cargas de alimento eram distribuídas, comprometeu-se a desenvolver pessoalmente um novo método logístico que ajudasse aquela gente mais efetivamente. Ao final, foi muito aplaudido, várias mães trouxeram seus filhos para contemplarem o Dignatário e receber sua atenção. O grupo começou a dispersar-se e o Dignatário notou, então, que o homem ainda estava ali, na porta de sua choupana, exatamente do mesmo modo em que o encontrou. Guardava ainda no rosto o mesmo sorriso simpático. Aproximou-se dele mais um passo, e fez sinal para o tradutor que traduzisse a conversa. Perguntou ao homem:
- Você ouviu as minhas palavras? Percebe que eu estou aqui para ajudar a mudar as coisas? Percebe que eu conheço todas as razões pelas quais seu povo se encontra nessa situação, para poder mudar algo por aqui?
- Tenho fome. – repetiu o homem.
- Sim, eu entendi isso. Mas você entendeu que estou aqui para ajudá-lo?
- Tenho fome. - disse, ainda uma terceira vez, com o mesmo sorriso no rosto magro.
O Dignatário olhou para o tradutor, um tanto desconcertado. E o tradutor lhe disse:
- Senhor, eu não quis interrompê-lo durante seu discurso aos locais – mas por estas bandas há um velho senhor estrangeiro que ajuda os nativos distribuindo comida a eles.
- Ele fundou uma ONG? Precisamos falar com ele...
- Não senhor. Ele não tem ONG, não organiza nem ensina nada. Ele apenas distribui comida para as pessoas, do modo mais justo que pode encontrar.... esse homem, ele..
- Mas sem uma organização sistemática? Sem apoio institucional? E porque é que nosso pessoal ainda não recrutou esse homem para nos ajudar, já que ele é tão respeitado por aqui?
- Bem, senhor, foi a ONU que o mandou pra cá alguns anos atrás. Ele era Dignatário da ONU, como o senhor. Mas depois de passar muitas vezes por aquele homem na porta da choupana e ouvir dele exatamente as mesmas palavras, todas as vezes,  acho que ele entendeu.


© 2011 Paulo Ferreira. Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Bem vindo ao tempo de questionar. Tudo.


O início do século XXI aconteceu quando mesmo? À parte as questões cronológicas, creio que o século começou mesmo no  11 de setembro de 2001. Ali é que tudo mudou, ou começou a mudar. Ali nasceu um novo tempo, com novas atitudes. Não somente boas coisas nascem de algo tão terrível, é claro. Mas ali começou o questionamento sistemático que tem marcado o início dos anos seguintes. E nosso século tem sido marcado por esse questionamento. Já não é óbvio quem será a grande potência nos próximos anos. Já não é claro qual o estilo de vida e de sociedade que serve de modelo. O futuro encontra-se mais aberto do que nunca, cheios de dúvidas que estamos. E esta dúvida sim, é bem-vinda. Porque se antes tínhamos respostas, é certo que não eram respostas tão boas. Só não nos permitíamos fazer as perguntas com tanta desenvoltura. Agora, não mais.
Coisas que antes não fariam sentido, são fatos. O presidente dos Estados Unidos é um negro. A igreja católica enfrenta dificuldades de credibilidade cada dia maiores. A economia mundial inclina-se para os emergentes. O Brasil é o país do agora, não mais o do futuro.
Não temos mais certezas, não damos nada mais como favas contadas. Tudo precisa ser revisto, analisado, pensado. Nada escapa – nem o significado da família, do casamento, o papel dos pais na educação dos filhos. Qual a carreira que lhe dará um futuro? Quais são suas prioridades de vida? A tudo, cabe pensar e questionar. E isso é bom. Quem sabe nos levará a respostas novas. Porque as velhas, a gente sabe bem onde nos levaram por esses anos todos.
Talvez estejamos começando a ficar um pouquinho mais espertos. Como Sócrates disse, há muitos séculos, provando sua própria capacidade de questionar e reinventar: Só sei que nada sei.
Essa é a atitude que nos leva a buscar novos caminhos e novas soluções. Desacreditando das velhas formulas e das respostas prontas, podemos ao menos ter a esperança de encontrar caminhos mais humanos, verdadeiros, autênticos na busca por uma vida mais plena e mais feliz.
Então, seja bem vindo ao tempo de questionar. Escolha algo na sua vida, no seu mundo, e se pergunte: é isso mesmo? Está certo? É o que deve ser? Questione-se sobre qualquer coisa na sua vida. E quando você menos esperar, pode até se surpreender com a resposta.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Diabo é o Medo.


"Somos uma corda estendida por sobre um abismo; o abismo que separa o animal que fomos do supra-homem que podemos ser."
Nietzsche



Um dia meu genial amigo Fernando Taulois me escreveu um de seus emails incríveis e entre outras coisas, compartilhou comigo uma idéia sob a forma de uma pergunta:

- O diabo é o medo?

Sim, o diabo é o medo.  Uma das duas forças fundamentais que nos movem na vida. O medo é grande, pode ser imenso, poderoso. Motiva ações no mundo todo, todos os dias, e faz com que pessoas acordem e façam tudo aquilo que não gostariam, o dia todo. Faz com que sejamos "Os únicos animais que fazem o que NÃO querem".  Porque a alternativa; inspira o medo.

Mas o medo não é a única força que nos move. Somos movidos - como tudo neste mundo - por duas forças, dois pólos, yin e yang.

A força oposta ao medo é o amor. Amor que os homens já não sabem muito bem o que significa; exceto quando olham para seus filhos.
Porque amor é uma força difícil de ser entendida por seres tão pequenos como nós: o amor, para ter força, exige uma coisa que nos é muito difícil: o amor verdadeiro é incondicional.
Todo amor verdadeiro é incondicional. E tudo que é incondicional tem a força da certeza, daquilo que É, simplesmente. É simples amar o belo, o fácil, o confortável. O que nos ajuda, o que nos impulsiona.
É difícil amar o que nos desafia, o que nos desestabiliza, o que nos exige. E veja que amamos tudo isso em nossos filhos - exatamente porque amor é incondicional.
Ou não é amor.
Somos seres muito pequenos, frágeis e limitados, não conseguimos erguer os olhos de nossos umbigos em 99% do tempo. Por isso, pode-se dar ao amor o nome que quiser, mas ele não será algo fácil de ser alcançado, porque exige verdadeira entrega.

Mas uma vez que haja essa entrega, curiosamente, não há nada mais fácil.

Já o medo - o medo é natural a todos os animais, é tão básico que acontece antes do raciocínio - é tão rasteiro que qualquer réptil é capaz de senti-lo. É a parte mais primitiva de nós, a parte que conhecemos mais intimamente, há milhares de anos. A parte quase irresistível da nossa natureza bestial.

Quase. Porque somos, todos, capazes de vencer nossos medos, quando surgem motivos certos. Oposto ao medo, o amor é a mais sofisticada, evoluída e sutil manifestação da nossa capacidade como "seres que podem ser mais que simples animais".

Mas faz relativamente pouco tempo que somos mais que animais.
Isso ainda nos é distante, estranho, pouco natural.
Precisamos ainda de esforço e concentração. Um dia será natural, ainda mais natural que o próprio medo. Não é para a nossa geração, claro.
Mas contemplar essa idéia, e defendê-la, é o melhor que podemos fazer como "nossa parte" para ajudar a pavimentar esse caminho.



© 2010 Paulo R. Ferreira. Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A medida exata.


Há de existir uma medida exata, que nem eu nem você conhecemos, para se manter um indivíduo exatamente na linha fina; verdadeiramente cortante, que separa a necessidade de desonestidade. Essa medida, só a conhecem as linhagens a quem foi dado decidir quem vive e quem morre, desde centenas de anos. E mesmo esses não são capazes de expressá-la, posto que é tão tênue, linha tão risível, quase quântica: a trazem marcada como receita, entranhada fundo na mitocôndria, no próprio DNA. Tão entranhada que não a tem como coisa consciente, posto que, por sua vez, viver conscientemente com tal absoluta crueldade seria intolerável (pelo menos assim creio eu, da minha inocência de gente comum) a qualquer pessoa. Acordar pela manhã, olhar-se no espelho, e saber-se responsável, de caso pensado, por manter outros seres humanos numa miséria, numa desumanidade tamanha; seria ter de reconhecer-se um monstro, sentir-se verdadeiramente demoníaco. Imagine a medida exata que mantém uma mãe no ponto extremo de levar a sério um país no qual seus filhos vendem balas no sinal aos cinco anos de idade – e ainda assim, não os quer transformados em delinqüentes; celerados; animais intrinsecamente destruidores da própria sociedade que os coloca nessa condição.
Imagine a força necessária para se manter honesto e minimamente decente, vendo seus próprios filhos, sua própria carne e seu próprio sangue explorados de modo tão baixo e vil. Imagine, somente por um instante, o seu próprio filho ou filha, aos cinco anos de idade, vivendo na rua, dormindo entre trapos sujos e transitando entre a fumaça dos carros numa avenida Tiradentes, em são Paulo, ou numa avenida Brasil, no Rio – batendo nos vidros dos carros dos cidadãos de bem, segurando nas mãozinhas miúdas uma caixa de chicletes, a qual pedem humildemente que comprem, por favor, “pra me ajudar, tio”. Sem comida, sem escola, sem saúde. Mais ainda, sem a mínima esperança de um dia serem tratados como gente.
Sinceramente, se você foi capaz de imaginar essa cena e não está trincando os dentes com uma raiva funda, não devemos pertencer, eu e você, à mesma espécie. Como é que essas pessoas conseguem se segurar o suficiente pra não dizer aos seus filhos: ao diabo com a seriedade, se essa nação nos trata como animais, sejamos animais então; arrancando a dentadas qualquer pedaço que se possa botar os dentes e fugindo para a caverna escura do anonimato completo de não ser ninguém. De onde tiram a força para não sair arrebentando as vitrines, destruindo tudo, virando de cabeça para baixo essa lógica insana que as mantém ali? Tiram essa força do medo? Medo de que? Qual é o ponto mais baixo em que podem ser colocadas? Se até os prisioneiros são mais bem alimentados? Se os próprios assassinos nas cadeias recebem alguma coisa, enquanto a eles não é dado absolutamente nada.
Não, não vem do medo essa força. Vem de um lugar muito mais estranho e abstrato, deve vir de uma esperança unicamente sagrada. Que certamente não deve ser religiosa. Deve ser outra medida, extremamente delicada, que impede que se perca a vontade de ser gente, mesmo quando os nossos são tratados como animais.
Ou menos ainda, porque os cuidados oferecidos aos cães das pessoas que tem um lugar decente na nossa sociedade são infinitamente mais humanos que aqueles que recebem as crianças realmente pobres.
Nós, brasileiros, achamos estranho que outros povos considerem vacas e macacos como animais sagrados. Mas sinto que consideramos nossos cães e gatos de estimação exatamente como seres sagrados a quem devemos todos os cuidados. A mim parece estranho que os povos – nós, brasileiros, inclusive – tenhamos tanta dificuldade em considerar sagrados os próprios seres humanos.

(C) 2010 Paulo R. Ferreira. Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Prêmio Jabuti 2010 ou O dia em que entrevistei Chico Buarque

4 de novembro de 2010 – Cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti, 52ª edição, na belíssima Sala São Paulo, um orgulho nacional, uma das mais belas salas de concerto do continente. Cobrindo o evento para a Câmara Brasileira do Livro, desta vez tive a oportunidade única e rara de uma entrevista exclusiva com Chico Buarque de Hollanda – o escritor – porque o cantor e compositor, a estrela da música brasileira estava lá somente para o público e os fãs. Para ele mesmo, e para o Prêmio Jabuti, esteve lá o escritor, o premiado romancista.
Entrevistei Chico em frente ao seu camarim (do lado de fora, a pedido dele mesmo). Tranqüilo como sempre, acompanhado de seu editor Luiz Shwarcz, da Cia das Letras (a quem agradeço muito a simpatia e o fato de ter-me reconhecido de tantos outros eventos cobrindo seus autores), Chico se confessou muito feliz com a premiação, que recebe pela terceira vez: “Me dei conta que receber prêmio literário tem um peso diferente” e disse que reconhece, sim, a importância da presença de famosos como um fator que colabora com a divulgação da literatura e dos livros, algo tão relevante para transformar o Brasil num país de leitores.
Mais tarde, com Chico no palco, o Mestre de Cerimônias Cunha Jr. contando uma passagem acontecida em Frankfurt, quando conheceu Chico; reforçou ainda mais a minha noção do grande privilégio que tive: “entrevistar Chico Buarque é o sonho de todo jornalista, e eu tive essa honra na ocasião”.

Pois o Chico escritor e romancista é de uma humildade desconcertante. Ao cumprimentá-lo eu disse, com toda sinceridade: “- Muito prazer Chico, é uma honra conhecê-lo” – e embora ele deva estar mais do que acostumado a ouvir isso, ainda fica sem jeito. Pedi pra entrevistá-lo, ele concordou na hora, e ainda tive de pedir a ele para mudar de lugar, porque estava em frente ao espelho do camarim – ao que ele pediu, então, que fizéssemos a entrevista do lado de fora do camarim. Fomos e confesso que fiquei com medo de perder a chance, caso juntasse gente – mas o acesso àquela área era muito controlado (não pergunte como eu cheguei lá, tem coisas que não se explica...) e pude, então, entrevistá-lo. Não posso publicar aqui ainda o conteúdo da entrevista, em razão da primazia de uso pela Câmara Brasileira do Livro. Mas posso contar que Chico estava muito feliz com o prêmio, e muito feliz em estar ali. Fez uma entrada tão discreta, já depois de iniciada a cerimônia, que a maior parte do público não viu que ele estava ali. Até o momento em que caminhou para o palco, com a naturalidade e a leveza que os realmente grandes e geniais conseguem ter, para receber o prêmio pelo segundo lugar como Livro de Ficção por “Leite Derramado”. A sala São Paulo veio abaixo em aplausos. E era apenas a sua primeira aparição na noite – ele subiria ao palco ainda por mais duas outras vezes na noite: para receber o prêmio Voto Popular e o Prêmio Livro do Ano.

Ao receber o último de seus três prêmios numa única noite, Chico se encaminhou diretamente para a porta lateral por onde tinha entrado e saiu, discretamente, seguido apenas por amigos que estavam com ele; entre eles Regina Duarte, que momentos antes arrebatara o público com uma leitura genial de um trecho do livro vencedor do primeiro lugar – “Se eu abrir meus olhos agora” de Edney Silvestre. 

Curioso é que antes da cerimônia, enquanto eu a entrevistava, Regina estava preocupada em encontrar um lugar onde pudesse assistir ao final da premiação sem desviar demais a atenção do público. Descobri então, que ela encontrou o lugar perfeito para ser discreta naquela situação: sentou-se perto de onde estava Chico Buarque.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Lista Transformadora - Por Paulo Ferreira

Muita gente com quem trabalhei, convivi e convivo, me pede referências e dicas de leitura e conteúdos, talvez porque eu vivo citando fontes, pensamentos, blogs e links que considero transformadores do pensamento. Então resolvi fazer A Lista Transformadora. Está longe de ser completa, é apenas uma lista que responde à primeira das perguntas da transformação pessoal, que é: "Por onde eu começo"? 

Esta é uma compilação breve de algumas referências que considero absolutamente relevantes para a formação do pensamento e a transformação pessoal. Não existe uma ordem ideal para acessar esses conteúdos, mas dê-se o tempo de conhecer todos eles. Tenho convicção que depois disso, é difícil que alguém não saia transformado e enriquecido, mesmo que leve dois anos - porque alguns livros levam tempo pra ler. E reler. Pressa, neste ponto, é irrelevante.
O mais importante, creio, é não interromper o processo ao se deparar com textos ou conteúdos mais complexos e desafiadores. Os koans do Tao Te King, por exemplo, às vezes parecem estranhos e sem sentido. Isso é sinal que ainda não os entendemos. Li muitas vezes alguns deles, sem compreender-lhes o sentido. Até que um dia, estava pronto e veio o insight. E então, click, faz sentido. Simples assim. Leio o Tao Te King todo ano. Revejo alguns desses conteúdos muitas vezes por ano. Considero muito importante não perder o contato com tudo isso, no cotidiano.

E, sobretudo, considero importantíssimo lembrar algo que disse Sidarta Gautama, o Buda original:

“Não acredite em nada do que eu digo apenas por respeito a mim, mas teste por si mesmo, analise como se você estivesse comprando ouro”

Sunscreen:

Discurso do Steve Jobs em Stanford
  
Livros

Tao Te King – Lao Tse

(Necessariamente na tradução do Huberto Rohden – não leia outra tradução)

 link para uma versão online do livro: http://www.ocaminhodomeio.com.br/taoteking/index.html

link para download em pdf:

Tao.te.Ching-Lao.Tse.rar - 4shared.com - online file sharing and ...


A arte cavalheiresca do Arqueiro Zen – Eugene Herrigen: http://www.yoomp.com/blogs/1141/feeds/MEGA%20ALEXANDRIA%20-%20ebooks/149902/Download%20-%20A%20Arte%20Cavalheiresca%20do%20Arqueiro%20Zen,%20%20Eugene%20Herrigel

O Tao da Física – Fritjof Capra:

O Tao da física - Wikipédia, a enciclopédia livre




EM AGUAS PROFUNDAS - CRIATIVIDADE E MEDITAÇAO
LYNCH, DAVID
Neste livro, uma mistura de autobiografia, história do cinema, ensaio espiritual e manual de meditação, o célebre diretor David Lynch conta como a prática da Meditação Transcendental mudou a sua vida, além de revelar como ela o ajuda a concentrar energias, estimulando sua criatividade e consciência. Um relato de experiências entremeado de histórias jamais reveladas sobre a produção de suas obras-primas cinematográficas. 'Em Águas Profundas' é uma leitura não só para fãs do cinema de David Lynch, mas também para todos que desejam melhorar a sua própria condição mental, através do desenvolvimento da criatividade e da capacidade de concentração.

Sinapse:

Saindo da Matrix

O Destruidor de Dogmas